terça-feira, 16 de outubro de 2007

Doutor Carapanan

Trotes em universidades são aplicados em calouros há muito tempo. Segundo a tradição da humilhação dos novatos por veteranos da instituição, isso e lei.
Nos tempos em que a criatividade inteligente não sofria debaixo de influencias massificadoras nem da ditadura do politicamente correto, muito menos da violência gratuita; o Seminário Teológico do Norte do Brasil em Recife, no seu corpo de alunos seminaristas, mantinha uma instituição oficiosa chamada, "Bicharada", onde cada um dos membros recebia seu titulo de membro com o batismo de seu nome "animal" para sua admissão na fraternidade. Como isso era compulsório, nunca fez muita diferença o "bicho" gostar ou não do nome a ele atribuido, ou mesmo aceitar seu lugar na Bicharada, mesmo porque segundo a tradição batista, a assembleia votou e aprovou em maioria, esta feito. Características físicas e maneirismos pessoais eram a deixa para sua catalogação. Não deixa de ser engraçado encontrar sua imagem no mundo animal ainda mais, quando não eh você que escolhe o nome. Normalmente isso rende grandes risadas e colorido especial a convivência e era muito natural que nem sempre o "Bicho" se sentisse adaptado ao seu nome, mas, não era sempre.
Muitos já sabendo do que ocorreria, entravam com um "habeas corpus" preventivo, e apesar dos seus apelos de "pela ordem presidente", na assembleia da "Bicharada", local onde eram democraticamente ouvidos; invariavelmente eram titulados com seus pseudónimos que os seguiriam por toda a vida, entre seus pares.

Algum tempo após o falecimento do Pr. Eliezer Pereira de Barros, meu pai, eu estava participando de um grande encontro de Missões Mundiais, o "Despertai", na sede de minha igreja em Campinas, e a ele vieram muitos de todos os lugares da região. Revendo amigos novos e antigos, veio me cumprimentar um colega de meu pai do Seminário em Recife. Boas palavras e conforto ao meu coração foram ditas.
-"Doutor Carapanan... grande colega"! Pronunciou pausadamente ele, com os olhos a mirar o passado. No mesmo instante lembrei-me das historias da "Bicharada" e como meu pai tinha tentado escapar dessa. Pude vê-lo imediatamente em minha mente contando animado, como sempre; do dia em que sem pensar, comentou com os colegas na sala de aula, sobre o incomodo de dormir com "carapanans" zunindo a noite toda.
-"Carapanan..."?? que tipo de coisa estranha e essa? perguntaram os "bichos" curiosos em volta, com aquele ar de "pegamos esse". Tentando se explicar, disse: "Esses insetos pequenos.... os "Culex"... .
-"Culex"?!!, "mas estamos diante de um especialista", disse alguém... "um doutor"!!! exclamaram todos. Isso mesmo, não deu outra: "Doutor Carapanan". Pronto, estava caracterizado o aluno vindo de Belém do Para, nortista, da Amazonia.
Para os não iniciados, "carapanan" eh o mosquito, pernilongo, murisoca, melga, que com sotaque e tipificação regional amazónica. http://pt.wikipedia.org/wiki/Mosquito
Cinquenta anos depois, o Dr Carapanan, voando no paraíso, tem sua memoria entre os amigos mantida, com alegria e a gostosa lembrança de terem tido uma vida usufruída em sua plenitude com bom humor e com bons companheiros.
Hoje inauguro esse blog com historias contadas e algumas vividas por meu pai. O bom humor de suas conversas para com todos, me permitem usar seu apelido de seminário para dar um "toque" de sua graça, animação e riso fácil que lhe eram próprios.

Rubim Tapajos Barros